
O protesto é a veia morta dos homens. Para alguns outros – vejo assim – é a veia cômica. O motor sarcástico que sabe ferir a quem deve. E Tom Zé, um performático da arte, nunca fez de seu protesto uma porta de banheiro
Tom Zé em sua mocidade tropicalista de 1968 concebeu esta obra, Grande liquidação, e transgrediu uma época. Há uma frase – desconheço a autoria (será minha?) – que diz “quem é marxista aos 20 é um jovem, aos 40, um louco”. Não sei se é verdade, não sei se é mentira; tanto faz, a discussão que paira por aqui é outra. O fato é que o musico nordestino – o mais paulistano dos nordestinos – aliado à ideologia da tropicália, transcendeu um momento chave da história de nosso país.
E como se transcende algo? Transgredindo? Também. Pensar no Brasil de 68, ano de AI – 5 e de censura total à mídia e aos meios de imprensa, é transgredir. Qualquer ato digno nesta época é uma afronta ao sistema de regras. Pensemos então dessa forma. Seria este disco um libelo ao marxismo? Não há odes de exaltação a Karl Marx, deixe essa ideia de lado. Mas há uma essência toda irônica contra o consumismo logo no título do álbum. E esse sentimento vive no decorrer das faixas. Em “curso intensivo de boas maneiras”, Tom Zé, num sarcasmo genial, dá a receita para se dar bem no plano cultural capitalista. Em “Não Buzine Que Eu Estou Paquerando ” , música que trata o homem de negócios como um estorvo a uma paixão de meio de rua, o cantor traz também da relação de dinheiro entre a indústria farmacêutica e as epidemias de saúde presentes nesses novos tempos com um sambinha que diz assim: “A sua grande loja/Vai vender à mão farta/Doença terça-feira/E o remédio na quarta. “. Sim, de uma atemporalidade magnífica
Deixamos o mundo que fabrica o veneno e o remédio e falemos de musicalidade. O disco traz uma carga tremenda de psicodelia. Cabe, inclusive, fazer aqui abrir uns parênteses. Psicodelia nem sempre está relacionada ao uso de drogas. Pode até ser que Tom Zé tenha dado um “tapa na moleca” naqueles tempos de flower power, mas isso não influiu na construção sonora das musicas. A palavra, tão somente o verbete cru do dicionário, nos transmite pelo menos duas idéias interessantes que muito dizem respeito ao artista Tom Zé. O Aurélio sugere: “Diz-se daquilo ou daquele que se distingue do meio tradicional, ou pela decoração, ou pela atitude, ou pela maquilagem, ou pela roupa, etc “e “relativo a, ou que se caracteriza por alucinações visuais, aumento de percepção e, eventualmente, comportamento parecido com o observado em psicoses.”
Quando digo que este álbum tem uma orientação psicodélica, justifico também dando vazão aos arranjos maravilhosos e incrivelmente inspirados de Damiano Cozella (o mesmo dos arranjos da fase psicodélica de Ronnie Von) e Sandino Hohagen. Vale mencionar também as duas bandas de apoio presentes neste disco. Os Brazões, excelente banda de sonoridade tropicalista cujo primeiro e único álbum também data 1968, e os desconhecidos – pelo menos para este que escreve – Os Versáteis. Não só isso. Tem algo que é de grande mérito da tropicália. Falo da constante mudança de andamentos e formações melódicas capazes de desnorteiar o ouvinte desavisado – vemos bastante isto na riqueza sonora dos Mutantes, por exemplo. Difícil é saber quem influenciou quem. Há também um elo, muito tênue, entre o debut da banda da Pompéia e do músico baiano.
E aquele jeito alucinado de mendigo da Sé, marcante na forma de se portar do velho baiano – o mais paulista dos baianos, repito – nunca irá deixar de perturbar. E o amor escancarado por São Paulo está evidente em músicas como “São, São Paulo”, faixa de abertura do disco e que ganhou o IV Festival Record de MPB de 1968. Na realidade, este retirante tem sim uma fascinação pelo urbano, pelo concreto cinza. Lembra assim, de soslaio, aquele troço que Adoniran Barbosa, celebre sambista, e que o Fellini, grande banda da cena paulistana dos anos 80, têm que até hoje eu não consigo copiar.
E na verdade, o que temos neste Grande liquidação é um rabisco da personalidade de seu criador. É, sim, uma inconveniência solicita comprovada na história contada antes do primeiro acorde de Camelô: danado pode dizê em disco, num pode? – pergunta Tom Zé, cinicamente aos censores da ditadura. O protesto é a veia morta dos homens. Para alguns outros – vejo assim – é a veia cômica, o motor sarcástico que sabe ferir a quem deve. E Tom Zé, um performático da arte, nunca fez de seu protesto uma porta de banheiro.


